11/10/2012 - 15h23 - Atualizado em 25/01/2013 - 10h14

Garmichel: um talento acompanhado de perto por seus pais

Trata-se do mais novo campeão brasileiro de motocross com apenas 7 anos de idade.

Zuun,motorcycles

Como explicar uma paixão? Como explicar então, uma paixão pelo esporte e quando este envolve uma família? Este é o caso da família Giehl de Dois Irmãos (RS). Pai, mãe e filho unidos pelo mundo off-road.

Entrevistar esta família e se envolver emocionalmente com suas histórias nos faz estar cada vez mais apaixonados e inseridos no universo moto.

E Garmichel Giehl, pivô de nossa entrevista, que como a grande maioria dos garotos de sua idade, tem como rotina diária colégio, temas de casa e brincar muito, a dele abre um parênteses, o brincar deste garoto duas vezes por semana é acelerar, e pular muito com sua 50cc em pistas de chão batido quando o assunto é treinar, isso tudo para chegar preparado para mais um final de semana de competições.

Garmichel na sua primeira corrida aos 4 anos de idade. Foto: Jornal O Diário de Ivoti/RS

O pai, Vilmar Giehl (38 anos), contou-nos como tudo começou.

Fui piloto de trilha, crosscountry e motocross e fiz pequenas etapas ao longo do tempo em que corria. Logo nasceu Garmichel e tive que optar entre minha paixão por motos ou meu filho. Hoje sei que minha decisão foi a escolha certa. Em termos de títulos no passado, somente de participações. Talento eu tinha para o esporte, mas nunca tive incentivo e, muito menos, apoio financeiro. Sei o quanto é difícil correr sem dinheiro, e quando tomei a decisão de fazer meu filho campeão, disse para mim mesmo que ia dar de tudo para ele atingir este objetivo.

Zuun: Você falou das dificuldades financeiras do passado, e hoje, tem condições de fazer dele um campeão com recursos próprios?

Vilmar: Não. Mas a vontade de fazer meu filho campeão é maior que tudo. Hoje, o meu salário vai todo para o sustento do esporte do Garmichel. Às vezes, vamos para as corridas apenas com dinheiro para gasolina. Aqui na minha cidade, temos comerciantes amigos que nos ajudam, mas o custo para treinar e correr é cada vez maior à medida que vamos crescendo nas competições. Temos sorte que o motocross é um evento família e, nos eventos, todos se ajudam para podermos seguir em frente.

Zuun: Como é treinar um garoto de apenas sete anos, e o mesmo ser seu filho?

Vilmar: O que eu sei, eu passo pra ele. No início, com apenas 3 anos e oito meses, eu tive sim um pouco de medo, um receio de ele não suportar a pressão do esporte,  falando que não aguentava com o peso da moto e muito menos colocar os pés no chão. Com cuidado explicava que andar de moto não era usar de força e sim, postura e jeito. Com o tempo ele foi curtindo e hoje não quer mais parar.

Garmichel e seu inseparável pai ao fundo atento a tudo. Foto: Bolivar Trindade

Zuun: Estamos em outubro de 2012. Neste ano, quantos finais de semana você folgou e como é conciliar os estudos do Garmichel?

Vilmar: quatro finais de semana, sendo que dois deles nós acabamos o dia nas pistas treinando e os outros dois choveu muito (risos, muitos risos...). Sobre os estudos, ele está no primeiro ano, aprendendo a ler e escrever. Conversamos sempre com os professores, e na sala de aula ele manda muito bem, querendo sempre terminar os trabalhos em primeiro (risos...), mas com qualidade. Recebemos muitos elogios dos professores.

Zuun: Recentemente esteve com Garmichel em Mato Grosso disputando e trazendo para o Rio Grande do Sul o título de “Campeão Brasileiro de Motocross 50cc”. Como foi esta aventura?

Vilmar: Apesar do cansaço de fazer 19 horas de viagem até Mato Grosso,  de treinar muito e ainda caminhar pela pista para reconhecer os melhores traçados com Garmichel, tentei deixar meu filho tranquilo e muito concentrado na corrida. O maior dificultador foi o calor de 40 graus. Aliado a isso, na noite anterior à prova, usaram três caminhões de bombeiros para molhar a pista o tempo todo, sendo que, no treino de sábado, a pista estava tranquila, mas no domingo, tudo mudou. Tivemos que mudar a estratégia de corrida, pois em uma das curvas, as canaletas estavam tão profundas que várias motos ficavam trancadas nas valas. A dica que passei ao meu filho era de fazer o caminho mais longo (por fora e menos encharcada) evitando as canaletas mais profundas. A estratégia foi perfeita, demos duas voltas no segundo colocado e três voltas no terceiro colocado, isso que, no início, Garmichel caiu não conseguindo levantar-se sozinho, pois a moto ficou por cima de sua perna. Nunca corri tanto na minha vida para chegar até ele, ligar a moto e colocá-lo de volta na corrida. Perdeu-se posições, mas volta a volta Garmichel buscou a vitória.

Zuun: Como é, depois de três anos de sacrifícios, treinos e competições ver seu filho se tornar campeão brasileiro de motocross com apenas sete anos?

Vilmar: A emoção é grande, um sonho realizado... (em lágrimas)...

Uma de suas incontáveis largadas no motocross. Foto: Bolivar Trindade

Zuun: Vejo alguns pais botando pressão em cima de seus filhos nas competições. O que você pensa sobre isso?

Vilmar: O dia que eu brigar com ele por causa de uma prova, paramos com tudo. Isso é uma pressão que ele nunca vai ter. Eu sei do que ele é capaz e é por isso que eu o treino. A única coisa que peço sempre é concentração e usar isso para fazer o melhor nas pistas. Mas, se o resultado for longe do que esperávamos, bola pra frente, pois não estou formando só um piloto, mas sim um cidadão, com respeito a todos na pista e na vida.

Zuun: Como será fechada a galeria de troféus 2012?

Vilmar: Além da conquista do Brasileiro, estamos liderando o campeonato gaúcho de Motocross, não temos mais como perder, e também estamos trabalhando para ficar em primeiro no veloterra.  No dia 16/09, conquistamos a copa Gramado/RS. Temos que continuar assim, treinando, participando e aperfeiçoando técnicas nas competições.

Zuun: Qual é o próximo passo do pai, ou o futuro de Garmichel?

Vilmar: Queremos colocar ele no Arena Cross. Será motivo de muito orgulho ele participar deste evento. Além da exposição a nível Brasil, será um sonho realizado por mim. Pois este evento é único.

Zuun: E como fazer para entrar no Arena Cross, sem condições financeiras?

Vilmar: No Arena, primeiro que você só corre se for convidado. Em relação às despesas, penso sim em buscar apoio, porque o custo é alto na preparação, equipamentos e viagens por todo o Brasil. Farei de tudo para que ele participe uma temporada inteira. Só preciso de um “sim” dos promotores do Arena Cross.

Concentração. Exigência seguida à risca a pedido de seu pai. Foto: Bolivar Trindade

Zuun: Qual é o “teu” objetivo maior como pai?

Vilmar: Vê-lo como piloto de uma grande equipe e que tenha condições físicas e financeiras para poder tratar este esporte do jeito que ele merece.

Zuun: E tu, guri, como é chegar no colégio na segunda e falar: “ontem ganhei mais um troféu, ou uma competição”?

Garmichel: Todos vem correndo me abraçar, saber como foi e se divertem ouvindo as minhas histórias do fim de semana. É uma festa.

Zuun: Quantas vitórias você tem?

Garmichel: Tenho até agora 56 vitórias nestes três anos.

Garmichel e seus incontáveis troféus. O que está em suas mãos é do recente brasileiro de 2012. Foto: Zuun Motorcycles

Zuun: E títulos?

Garmichel: Em 2011, fui vice campeão gaúcho, terceiro no brasileiro e quarto no regional. Em 2012, conquistamos a copa gramado, estamos liderando o gaúcho (FGM) e o maior até agora que é o brasileiro (CBM).

Zuun: Você tem medo quando entra na pista para competir?

Garmichel: Não, não tenho medo não. A única coisa que me dá antes da prova é uma dor de barriga, um friozinho que me dá antes da largada. É só isso. Depois que acelero, tudo volta ao normal e só penso em chegar na frente e ganhar.

Zuun: Você chora quando perde?

Garmichel: Eu choro um pouquinho (risos...), mas quando eu não consigo fazer algo na pista que treinei, fico muito, mas muito brabo, daí choro mesmo!!

Zuun: Tem algum segredo para se tornar este vencedor?

Garmichel: O Segredo é meu pai. Ele fica orientando-me, dando dicas de como entrar nas curvas, acelerar no momento certo e, ainda, me faz caminhar pela pista para conhecer o melhor trajeto e, depois, desenhamos ela juntos num papel para memorizar suas curvas. Treinamos muito, pois o segredo é não cair, andar em pé nas retas, sentar nas curvas, aprimorar os saltos e, principalmente, divertir-se nas pistas.

Comentários,

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  • Erik Vitorassi Soares
    26/09/2013 - 12h04

    Nessa matéria inspiro minha vida,só que comecei agora com 7 anos e fui campeão da copa grillo(copa regional de santa Catarina),mas parece que vendo ele contar sua história se parece um pouco com a minha e da minha familia pois sou Eu,meu pai e minha mãe assim como eles pelas estradas todo fim de semana !Este ano tive o prazer de disputar a copa verão gaúcha com esta ferinha e conhecer este povo acolhedor e hospitaleiro.Deixo um abço a familia e ao meu mais novo colega Garmichel,parabéns campeão!

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Classificação,

    PILOTO PONTUAÇÃO
    1 Antonio Cairoli 478
    2 Clement Desalle 387
    3 Gautier Paulin 383
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esportes,19 Nov